Avançar para o conteúdo principal

Abril, Sempre - Óscar Lopes (1917-2013)

A etimologia não resolve nada só por si, mas levanta pistas, às vezes insuspeitas, às vezes óbvias mas esquecidas.


Por exemplo, o título desta colectânea*. Sempre. Na sua origem latina mais antiga, há um elemento sem – que, curiosamente, está também na base de semelhante, de simultâneo e de singular. A noção fundamental que lhe corresponde é a de uma unidade, singularidade ou conjunção, seja no espaço seja no tempo. O segundo elemento, per (em latim a palavra é semper), assinala uma ideia de duração, ou antes perduração, ou trajectória, através de vários lugares, tempos ou vicissitudes. Sempre exprime, portanto, uma unidade dialéctica e não substancial, ou, se preferem, substancialmente dialéctica, sem definição subsistente, porque apenas subsiste em redefinição constante.


Abril era o segundo mês do calendário anual romano. O ano cíclico actual foi adiantado de dois meses, e por isso, Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro assinalam, erradamente, na sua designação, respectivamente, o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo mês. Segundo uma etimologia popular, registada pelo primeiro grande linguista romano, Varrão, o mês de Abril, em latim Aprilis, teria este nome porque nele ver omnia aperit: “a Primavera abre tudo”. Quando Ary dos Santos fala nas “portas que Abril abriu” não está, portanto, a fazer um simples jogo de paronímia, ou semelhança verbal, está (talvez sem dar por isso) a reactivar a carga etimológica tradicional do nome do mês, dando-lhe uma conotação que o liga ao maior (e até hoje melhor) acontecimento histórico do Portugal moderno.


Mas o próprio Varrão aponta que, numa origem mais remota e inaparente, o nome Abril se relaciona com o nome Afrodite, o nome grego da deusa do amor. Os filólogos modernos parecem dar-lhe razão; o nome Abril relaciona, entre si, o abrir das corolas, o abrir dos dias à inundação solar, o abrir às seivas nas veredas vegetais, e o tumultuar do amor no sangue, seiva animal e humana. Num belo poemeto de Os Amantes sem Dinheiro que tem precisamente o nome deste mês e que data de 1947-49, Eugénio de Andrade diz:


 


Abril anda à solta nos pinhais  


coroado de rosas e de cio,


e num saltar brusco, sem deixar sinais,  


rasga o céu azul num assobio


               


 


Estes versos retomam uma vivência de tradição inconsciente e agarrada ao próprio nome do mês, nome que se julga ter nascido de algo como uma redução afectiva, meiga, ou hipocorística, Aphrô, do nome de Afrodite.



Abril, sempre: o borbulhar cíclico da esperança, que se impõe mesmo antes de pensar-se, por impulso genésico incontível, através de todos os meandros da história. A certeza de que viver faz sentido, mesmo que não se saiba qual, e às vezes não pareça. Um sentido tão evidente como é evidente o seu contrapolo: a morte, as mil mortes da limitação individual, da inabilidade, do fiasco, da decrepitude, da doença, da opressão ou exploração, da mentira, da traição, do egoísmo de classe.


            


Não há amor feliz, disse Aragon, e é verdade. Também não há amor sem a certeza da sua razão, que nunca se conhece. Primeiro vive-se, depois é que se vive – pensando. O próprio prazer é tardio, é já, se calhar, um começo de velhice. O desejo não se liga na sua fonte juvenil a uma fruição: o amor, qualquer amor, urge-nos, e dói. Todo o amor é, não um erro, mas uma errância, e tem a sua imagem clássica nos errores de Ulisses, Eneias ou de Os Lusíadas, com passagem por uma (ou mais que uma) ilha Edénica, uma ilha Afortunada, uma ilha da Perfeição, que satura sempre, porque é dada, e não feita, e os humanos não se contentam com menos do que com uma candidatura ao divino. O encanto de uma corola, um rosto, de uma liberdade entrevista, dói-nos, como a ansiedade de fazer o que se não sabe fazer, nem como fazer.


 


Abril. Sempre. Através de todos os errores. Certo na hora incerta. Como a morte, tal qual. Porque a resgata.


 



 


                                                                                                                                                       Óscar Lopes (1986)

Comentários

caetano disse…
(3.515 caract) O professor Óscar Lopes era uma figura seca, magra, grisalha, baixa, de sorriso recolhido, sobrolho inquieto, fortíssima pronúncia do Porto, aperto de mão firme, gestos rápidos e sacudidos, e eterno fato cinzento. Não lhe cabiam ademanes nem cortesanias. Tinha concentração em tudo. Exprimia-se com precisão, dizia o que pensava e não lhe sobrava paciência para rodeios nem rapapés. Vinha do Porto de comboio para presidir às reuniões da Associação Portuguesa de Escritores, ou para intervenções adrede, com sacrifício pessoal e férreo espírito de missão.
Depois de provocado (às vezes, confesse-se, de propósito), era um deslumbramento ouvi-lo expor em profundidade, com um pensamento sequencial e organizado, estendendo informação e raciocínio por vastidões de campos, torres e minas, flancos , linhas de reforço e auxiliares. Tudo aquilo se ia desdobrando, perante as nossas almas atónitas, como um exército que instala um cerco, dispondo de uma ampla retaguarda, os melhores e mais variados armamentos, sapadores e engenheiros de excelência. Alinhavam-se para lá do horizonte reservas inexauríveis de autores, citações, fichas e reflexões. Tudo ligado com cruzamentos de informação interdisciplinar a que acudiam amiúde a ciência, a matemática e a música.
Lembro-me do interesse e da insistência com que defendia a presença de escritores nas escolas, e da meticulosidade conformada com os maçadores assuntos do dia-a-dia duma associação obrigada a ocupar-se, em grande medida, da sua própria sobrevivência. Da sua capacidade de decifrar as caligrafias mais intrincadas, chamando-as a si, quase com volúpia, após as desistências de outros. Do ar preocupado e quase suplicante com que, perante um feixe de argueirices e alusões mais ou menos maliciosas e apropriadas ao meio literário daqueles dias, pedia: «mas expliquem-me o que se passa, não tenho sensibilidade para essas coisas». E de me ter dito a mim, novel escritor estupefacto, a propósito de um dos meus romances (creio que foi o «A Paixão do Conde de Fróis»): «já li o seu livro, mas ainda não o estudei».
Não havia sombra de afectação nisto. O professor Óscar Lopes lia os livros mais que uma vez. Estudava-os mesmo.
A clareza, a solidez e o fundado da exposição, aliás, são características de uma obra indispensável para a o estudo da nossa literatura dos séculos XIX e XX, e não somente.
Quando hoje preciso de qualquer referência sobre literatura portuguesa , ou duma primeira informação sobre um autor ou o seu enquadramento, recorro à História da Literatura Portuguesa que Óscar Lopes escreveu com António José Saraiva. Ainda há pouco tempo conservava, embora tenha adquirido novas edições, o meu velho e combalido volume dos anos cinquenta, de capa de cartolina vermelha, já algo desarticulada.
Na altura, nos liceus da minha juventude e infância, proibia-se recomendar essa história da literatura. Não era pura e simplesmente mencionada. Mas, enfim, por portas travessas, sobretudo por via familiar ou por colegas bem informados, lá nos chegou a notícia de uma obra que, na matéria, sobreleva todas as outras, e se nos tornou indispensável.
Grata surpresa (por inesperada) ver que os jornais ditos de referência deram relevo à figura de Óscar Lopes. A obra de Óscar Lopes e o lastro que deixou na cultura Portuguesa, serão, decerto, objecto de considerações mais desenvolvidas pelos seus discípulos ou pelos estudiosos da literatura e da cultura portuguesas.
Por mim, acho que lhe devia esta nota pessoal humílima.
MdC
www.mariodecarvalho.com

Mensagens populares deste blogue

Estacionamento desordenado na Zona Industrial de Alfena compromete a segurança pedonal

  A Zona Industrial de Alfena continua a enfrentar um problema de organização do espaço público que afeta diariamente a segurança e a mobilidade de quem ali trabalha e circula. Em vários arruamentos, os passeios existentes têm largura suficiente para garantir uma circulação pedonal confortável. No entanto, a ausência de uma correta organização do estacionamento faz com que muitos veículos estacionem parcialmente ou totalmente sobre os passeios, obrigando os peões a circular pela faixa de rodagem, muitas vezes entre veículos pesados.    Esta situação resulta, em grande medida, da opção por manter lugares de estacionamento em paralelo, quando a largura disponível permitiria a criação de estacionamento em espinha, aumentando o número de lugares e evitando a ocupação abusiva dos passeios. A atual configuração revela-se desadequada às necessidades da zona industrial e acaba por gerar conflitos permanentes entre veículos e peões. Não estamos perante um problema inevitáv...

Resultados Freguesia de Alfena

 

Orçamento e Grande Opções do Plano para 2026 – Mapa de Pessoal para 2026

A CDU manifesta a sua abstenção na votação do Orçamento e do Plano Plurianual de Investimentos para 2026. Reconhecemos que a proposta apresentada contempla medidas positivas para o concelho, nomeadamente nas áreas da educação, da habitação, da saúde e das creches. No entanto, apesar da relevância e do potencial destas medidas, subsistem fundadas dúvidas quanto à sua efetiva concretização. A experiência de anos anteriores demonstra que diversos orçamentos incluíram obras e investimentos que acabaram por não se materializar. É neste contexto que a CDU opta pela abstenção: uma posição que permite viabilizar o Orçamento, mas que não deixa de expressar reservas quanto à concretização de prioridades estruturais essenciais, como a defesa do direito à habitação e a requalificação das escolas. A defesa do direito à habitação exige mais do que intenções. Exige a concretização de investimentos há muito anunciados, o combate à especulação imobiliária, a melhoria das condições do parque habitaci...