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JFE - Tomada de Posição - Deixem-nas crescer !

Mais uma vez, entrado o Inverno, estamos a ser confrontados com a chamada "poda", que desfigura e enfraquece as árvores dos nossos espaços públicos, parques, jardins, escolas, etc..

A "poda camarária" - uma espécie de "vandalização institucional" dos arvoredos do domínio público - visa, pretensamente, dar um ar de " limpeza " e um aspecto " cuidado " às árvores vítimas destes maus tratos.

Nenhum argumento técnico, muito menos estético, pode justificar este massacre anual dos arvoredos públicos. A “poda camarária “ é apenas um mau hábito rotineiro e como todos os hábitos deste tipo, não tem nenhuma explicação.

Estas chamadas "podas" arruínam as árvores. O corte da maior parte da copa, como é habitual fazer-se, priva a árvore das suas reservas nutritivas, acumuladas no Verão anterior, e que lhe permitiriam iniciar novo período vegetativo na Primavera seguinte. As árvores "podadas" rebentam mais tarde que as não podadas, com muita dificuldade e produzindo ramos enfezados e deformados.

Outro efeito pernicioso da " poda " é a morte de parte das raízes que levavam água e nutrientes minerais para os ramos decepados e deles recebiam, por sua vez, açúcares elaborados pelas folhas. Em consequência, reduz-se a base de sustentação da árvore, que pode caír mais facilmente, sobretudo durante os temporais.

Pelos cortes extensos abertos por esta lamentável prática, entram inúmeros fungos causadores de doenças da madeira, que acabam por enfraquecer e matar as árvores.

As Câmaras municipais, não só a de Valongo, plantam mal e de modo inadequado, poucas árvores e pouco diversificadas: Tílias, Plátanos, Choupos e ficam-se quase por aí. Como são árvores de grande porte, não são ajustadas a todos os locais. Ou seja, quando as plantam em sítios onde elas, ao crescerem, vêm a não caber, passam depois a vida a cortá-las, a fazer a tal "poda", na tentativa vã de remediarem o erro original de plantação.

No entanto, mesmo as árvores plantadas em locais amplos e abertos, onde se poderíam desenvolver à vontade, são objecto do mesmo mau trato.

Por outro lado, deita-se abaixo com a maior das facilidades, esquecendo que o que se corta em poucos minutos, levou dezenas de anos, quando não séculos, a criar.

No fundo, as autarquias gastam dinheiro a plantar árvores para depois as irem matando lentamente, pela prática de uma "poda" isenta de quaisquer regras e objectivos racionais.

Em face deste panorama, que sentido podem ter as declarações de boas intenções quanto à educação ambiental, o "Dia da Árvore", os belos folhetos sobre o ambiente e todo o discurso "ambientalista" que está na moda ( porque dá votos )?

As autarquias têm, infelizmente, contribuido para a dramática redução e aniquilamento do revestimento vegetal do concelho (urbanização desregrada, incêndios, a política do bota-abaixo).

A nosso ver devem ser tomadas algumas medidas urgentes para melhorar esta situação:

  • a plantação de espécies adequadas a cada situação e a cada local;
  • diversificação das espécies dos nossos jardins e ruas, utilizando árvores e arbustos, sobretudo da nossa Flora nacional e local, melhor adaptadas ao meio. Plantar árvores de fruto, como nogueiras, castanheiros ou até variedades regionais de laranjeira e macieira, por exemplo.
  • acabar de vez com a chamada “ poda”; o tempo e o trabalho das pessoas empregues nestas práticas pode ser utilizado com maior proveito na plantação de novas árvores e no tratamento adequado das que já existem. Qualquer operação de corte deve limitar-se à retirada de ramos secos ou tocos de ramos quebrados por qualquer acidente, que eventualmente possam tocar em fios eléctricos ou noutras situações a definir criteriosamente.
  • o respeito pela forma natural das árvores, que lhe foi dada pela Natureza em milhões de anos de evolução e selecção naturais. Para isto, é necessário plantar árvores sãs e sem cortes na sua copa original e deixá-las crescer, cuidando apenas de as alimentar e amparar, sobretudo enquanto jovens.
  • promover a educação ambiental e o respeito pela árvore, ser vivo complexo e admirável, que não temos nenhum direito de destruir. Lembramos, por exemplo, que um dos objectivos traçados pelo Ministério da Educação para o ensino básico é a educação ambiental. Como poderemos promover a educação ambiental, tendo em conta o apoio que a comunidade deve dar à Escola, se continuamos a dar este tratamento às poucas árvores que existem na nossa cidade e este mau exemplo?

Ermesinde, 20 de Dezembro de 2006

Comentários

Titas disse…
Olá a todos,

Gostaria apenas de exprimir a minha opinião sobre um pequeno pormenor descrito neste artigo....
Podas Camarárias????? Acho que o termo não é muito feliz. Nem todos são iguais... por isso respeitem municípios onde a ciência arborícola é efectivamente levada à letra. O que chamam de podas, não são podas. São Decepações . Rolagens . A poda é uma arte, e essas operações que descrevem não são arte nenhuma. São simples operações que qualquer fulano de motosserra na mão pode fazer.
Quanto ás propostas acho-as interessantes , mas também o mercado nacional deve responder ao v/ apelo. Sabem , é que nem sempre se encontram as plantas que se querem!
Um abraço Amistoso.
Carlos Coutinho disse…
Este tema daria para longas conversas. Apenas um breve comentário. O termo "poda camarária" é pejorativo e sempre foi e é utilizado para classificar essas arreias, decepamentos, estropiamentos, etc., que Câmaras, Juntas, escolas, universidades (é verdade!), instituições do Ministério da Agricultura, Instituto de estradas, particulares, etc., fazem às árvores.
Quanto à existência de árvores para plantar no mercado, não concordo. Há hoje uma inflação de viveiros e viveiristas, alguns muito bons, que conheço. Além disso, as autarquias reunem condições físicas (terreno, pessoal, dinheiro) e OBRIGAÇÃO de terem viveiros próprios, para desenvolverem essa área, reproduzindo árvores e arbustos autóctones, mas não apenas, de modo a irem plantando para o presente e para o futuro, com critérios científicos, botânicos, estéticos, racionais. Assim o quisessem.
Concordo que a poda é uma arte, seja ela de ornamentais ou de fruteiras alimentares.
Carlos Coutinho disse…
Retribuo o abraço amistoso, agradecendo a atenção dedicada a este assunto, que os eleitos da CDU já por mais de uma vez abordaram na sua actividade autárquica.

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