A um ano e meio das eleições autárquicas começam os partidos do centro (PS e PSD) a escolher os candidatos a “Presidentes” da Câmara.
A candidatura do PSD (com ou sem CDS, falta saber), aparentemente, não trará novidades; o candidato é o mesmo de sempre, apesar de, já no mandato anterior, ter mostrado pouca vontade para governar e muita falta de ideias e dinamismo. Durante três anos, praticamente nada foi acrescentado ao que tinha sido feito em anteriores mandatos e teve sucessivas divergências e atritos com os restantes elementos da sua equipa, que de equipa teve pouco, tão flagrantes eram as oposições e conflitos que a atravessavam.
A novidade destas eleições é o putativo candidato do PS. Velho nestas andanças da política, este “destacado militante e dirigente do PS” do concelho de Valongo tem afirmado estar muito motivado para liderar uma candidatura ganhadora às próximas autárquicas e até já veio colocar a possibilidade de uma coligação à esquerda, que juntaria PS, CDU e BE.
O sentimento que tive ao ler esta entrevista foi de alegria. Até que enfim que um candidato do PS em Valongo pretende juntar--se a um partido de esquerda para governar a CMV!
Rapidamente, porém, comecei a ficar desanimada. Pode até Afonso Lobão querer realmente governar à esquerda, com a promoção no concelho de políticas fundamentadas democraticamente e de acordo com as necessidades da população; mas e os restantes dirigentes do partido? E como poderão as outras forças de esquerda e os eleitores acreditar que o PS na Câmara de Valongo seria diferente do PS no Governo, com as suas políticas neoliberais e o seu ataque aos mais básicos fundamentos da nossa democracia, incluindo o Poder Local?
Com efeito, a acção do PS no Governo tem, entre outros efeitos, criado grandes dificuldades à gestão das autarquias, que se vêem a braços com um número crescente de competências sem que essas competências venham acompanhadas da correspondente atribuição de verbas.
No concelho de Valongo, por ser turno, o PS tem-se aliado, no essencial, ao PSD, ainda que procure dar uma imagem de contestação, com o seu estilo trauliteiro e a sua política de “terra queimada”.
Ainda na última reunião da Junta de Freguesia de Ermesinde, o PS mostrou-se favorável a uma possível gestão privada do próximo cemitério a construir em Ermesinde. Para o PS, conceder a privados a gestão de um serviço que tem sido prestado com qualidade pela Junta e que tem dado lucro à autarquia não é um erro. Em Elvas, uma Câmara PS, a gestão privada do cemitério conduziu a que os preços passassem a ser três vezes superiores aos pagos em Lisboa, Câmara também ela PS, mas onde a gestão dos cemitérios permanece, pelo menos para já, pública. No Governo, como em Elvas, o que parece interessar é mesmo o favorecimento dos interesses privados. Afinal de contas, só há um PS...
A ideia que a CMV pode controlar as taxas pagas nos serviços concessionados não passa de mera ilusão. Será que ao PS não chegam os exemplos do que está a acontecer com os valores pagos pela água ou até mesmo do que aconteceu com as taxas dos parquímetros?
Perante os factos, ficam as incertezas. Será possível que os partidos de esquerda aceitem coligar-se com um partido que, apesar de proclamar representar a esquerda, governa cada vez mais a direita, em prejuízo do interesse público e das expectativas e necessidades do grosso da população? Será possível elaborar um efectivo programa de esquerda, equilibrado e passível de ser respeitado pelo PS?
Pessoalmente, tenho sérias dúvidas.
Por: Sónia Sousa
Comentários
Na reunião da Junta, o pessoal do PS meteu os pés pelas mãos e lá foram dizendo que isto era tudo mentira. Nunca disseram que eram a favor da concessão a privados.
Mas como a reunião foi gravada e um deles está a responder em tribunal por insulto facilmente mudaram de tecnica e passaram a dizer que era uma opinião pessoal e não a opinião do PS.
Como se nós não soubessemos do que o PS é capaz...
A CDU é já de si uma coligação que, no Sul do país, tem dado provas excelentes do que pode e deve ser uma democrática gestão do poder local. Contudo, a Norte, dados os preconceitos profundamente enraizados contra a palavra "Comunista", torna-se necessário um entendimento entre as forças à esquerda do PS.
Para os concelhos do Grande Porto seria mesmo o ideal, de forma a introduzir, de uma vez por todas, nas câmaras alaranjadas algo de democracia e respeito, assim como mostrar aos eleitores o que é a honestidade e o bem-fazer políticos.
Tem a CDU motivos para manifestar algum cepticismo quanto às declarações públicas do Partido Socialista, na pessoa de um dos seus líderes locais, sobre a necessidade de uma suporta união das forças de esquerda do concelho com vista às próximas eleições? Certamente, tanto mais que desde a data da publicação das referidas declarações não existiram quaisquer contactos formais com nenhum dos dirigentes da CDU para a discussão de quaisquer propostas nesse sentido. Mais ainda, o procedimento correcto por parte do Partido Socialista teria sido abordar a questão junto forças políticas de esquerda a que se refere antes de realizar qualquer declaração pública.
Mas apesar deste defeito de forma, julgo que é importante, a partir do momento em que tais contactos se formalizem por parte do Partido Socialista, julgo que é positivo manter uma discussão positiva e aberta sobre a existência ou não de qualquer possibilidade, não só de uma coligação, porque não, mas também, e talvez mais importante, sobre a possibilidade da formulação de acordos de governação pós-eleitorais a nível autárquico entre as diferentes forças da esquerda, no sentido de lograr uma gestão eficaz na sua resposta aos problemas do concelho.
A pesar de não ser possível dissociar a acção política de um partido no governo a nível nacional do seu comportamento a nível autárquico, todos sabemos que a política local e a política nacional nem sempre têm porque ser as mesmas, e que a gestão autárquica obriga, pelas suas características, a uma abordagem dos problemas que dista muitas vezes da que constatámos no âmbito da política a nível nacional. Se realmente existe por parte de todas as forças políticas do concelho, sejam de direita ou de esquerda, um interesse genuíno em melhorar a qualidade de vida da população, e em solucionar os problemas que afectam o quotidiano dos habitantes do concelho, não existe nenhum impedimento para essa discussão aberta.
A CDU sempre deixou claras as suas intenções, e todos conhecemos o seu empenho e a base em que assentam as suas propostas de gestão autárquica. Se as restantes forças políticas representadas nos órgãos de gestão autárquica entenderem que é possível, com base no conhecimento das propostas e da actuação da CDU, encontrar pontos comuns para a formulação de propostas coerentes e realistas para o futuro, porque não manter essa discussão aberta sobre esta possibilidade? Obviamente, o mesmo princípio deverá ser assumido pela CDU como base para que esse debate tenha lugar. E penso que sempre ficou claro que a CDU nunca se negou a qualquer possibilidade de entendimento com as restantes forças políticas do concelho, sempre e quando este resulte de um encontro de opiniões e de ideias que em nenhum momento ponham em questão os princípios que nos guiam e que nos levam a querer servir a população do concelho.